
McLuhan mobilizou linhas mestras de seu pensamento acerca do impacto das inovações mediáticas sobre o ser humano para antecipar os efeitos da formação de um "novo ambiente 'sensório'": a aldeia global.
Marshall McLuhan admitiu inúmeras vezes que uma tese como a sua sobre os efeitos de meios tecnológicos sobre o homem, na qual o meio se identifica como a mensagem, teria sido indefensável no contexto de uma mentalidade disjuntiva própria da sociedade mecanicista, esquemática, uniforme e fragmentadora, engendrada pelo surgimento do homem tipográfico. A Galáxia de Gutenberg é sua denominação metafórica para a sociedade que viveu sob o paradigma da mecanização e da impressão tipográfica da escrita (a partir do século XV), que instituiu o individualismo e o nacionalismo, difundiu a alfabetização fonética e fissurou a oralidade nos moldes tribais em benefício de uma cultura baseada amplamente na palavra escrita oriunda da tipografia; as tecnologias especializadas, sequenciais, contínuas fragmentataram o homem , provendo-o de extensões parciais de seus sentidos. A fragmentação é, para McLuhan, a essência da tecnologia da máquina mecânica (aquela descrita por Descartes no século XVII).
Na virada do século XIX para o XX, o advento do cinema revelou-se marco da transição da “sucessão linear [escrita tipográfica] para a configuração [grifos meus]”, a substituição da máquina analógica pelas tecnologias eletrônicas, anunciadas pela emergência de novos meios (a fotografia, o rádio, a televisão e o computador), restituiu à consciência do homem civilizado sua origem tribal, balizada na simultaneidade, na oralidade, na configuração orgânica integrativa recalcadas em favor da mentalidade classificatória, do sequenciamento serial e da linearidade da escrita que a era mecânica hegemonizou. McLuhan percebeu ainda muito cedo que esses efeitos totais dos novos meios eletrônicos irromperiam numa retribalização do homem, na passagem da mecânica galáxia de Gutenberg para a eletrônica aldeia global.
O termo aldeia global** é outra contribuição célebre de McLuhan; trata-se de uma denominação precurssora para o espaço comum destinado a interações mediadas que posteriormente a cibercultura reivindicaria pelo nome ciberespaço. Aliás, a noção de que os meios criam novos “espaços”, novas ambiências, deve muito a McLuhan, para quem o advento de um novo meio, estendendo a potencialidade humana, abre seus sentidos a novas percepções, antes inteiramente estranhas, bem como desloca a significação de todas as demais faculdades perceptivas e mesmo cognitivas. Assim, os meios configuram, também, ambientes sensórios únicos e novos, que funcionam tal qual um espaço ainda desconhecido que nos desafia a explorá-lo.
Um indivíduo (ou mesmo uma sociedade inteira) estaria preparado para lidar com uma ambiência sensorial singular que é também uma extensão tecnológica de seus sentidos? A resposta que McLuhan sempre reiterou, categoricamente: não. Uma vez imerso nos novos “espaços” sensórios condicionados por nossas extensões, resta explorá-los, não pela análise sequenciada de seus conteúdos (as “mensagens” para o homem tipográfico), mas pela tentativa de decifrar sua gramática própria, a maneira pela qual ele processa seus efeitos – a mensagem no sentido mcluhaniano. Lembra McLuhan, em sua obra principal, que Napoleão foi o primeiro a entender a gramática da pólvora, assim como Aléxis de Tocqueville foi o primeiro a apreender a gramática da imprensa e da tipografia; decifraram, assim, suas mensagens.
Meios digitais reconfiguram a percepção de meios tradicionais. A maneira como lemos na internet é o caso exemplar: o texto se verte em hipertexto, que desvincula a leitura do padrão linear, sequencial e contínuo que o meio do livro impresso canonizou desde os tempos de Gutenberg – foi a revolução do codex (livro), em substituição ao pergaminho, como suporte privilegiado da escrita e da leitura. A nova revolução, a do hipertexto, permite uma extensão da faculdades de escrita e leitura viável, a princípio, apenas na ambiência sensória condicionada pelo ciberespaço.

O Artext (www.artext.co.uk) pulverizou a sucessão linear da escrita (bem como seu conteúdo discursivo), propondo uma nova função para os tipos (fontes) - agora altamente imagética. Os meios digitais condicionaram o "design tipográfico", que permite uma experiência criativa radicalmente novas a partir de meios tradicionais.
* Série de três postagens sobre a relação entre o homem e suas extensões mediáticas.
**No site do professor Wladymir Ungaretti há um artigo bastante útil aos mais interessados sobre a influência do pensamento do padre Chardin no conceito da aldeia global em McLuhan.

Greg
Possivelmente eu não esteja de acordo com muito do que McLuhan diz. Este é, todavia, meu primeiro contato com o trabalho dele e você está apresentando bem idéias que parecem bastante complicadas.