A vida das pedras
Borges escreveu que é ao outro, a Borges, que as coisas sucedem…
Parece tentador pensar que as coisas todas acontem a alguém que não nós, nem que para tanto seja preciso atribui-las a nossos duplos. Se tudo é tal como o rio que flui, como pretendeu Heráclito, ideia alguma poderia ser mais coerente; na transitoriedade absoluta, cada instante é natimorto ( e, por essa visão, seria natural pensar que nós mesmos também o sejamos).
Em algum ponto do Fausto, Mefisto responde sobre sua identidade:
Quem sou? Parte da força que, empenhada no mal, o bem promove.
[...], pois tudo
Quanto nasce merece ser aniquilado;
Portanto, era melhor não ter nascido.
Cosmovisão tenebrosa da totalidade do universo: o engano é nascer; o triunfo é o estorvo. Tudo se dissipa no fluxo da existência.
Mas aprender é criar metáforas – tudo quanto desconhecemos é sempre descrito nos termos alheios daquilo que já nos é conhecido. E minha metáfora predileta para a vida não é a do fluxo, mas a da pedra; signo de força e ordem – nada traduz igual a revolta silenciosa. Fascina-me sua resistência às intempéries, sua contenda contra as erosões que a matam enquanto (belamente) a esculpem. Lembro que João Cabral enunciou as lições da Pedra – pela dicção ela começa…
a lição de moral, sua resistência fria
[...] a de poética, sua carnadura concreta
a de economia, seu adensar-se compacta.
Quero essa poética mineral.
A pedra (e Borges bem sabia) quer, sobretudo, sempre ser pedra – e isso só lhe basta. Tenho a impressão de que é à pedra que as coisas realmente sucedem.
12/05/2009

As odes e os orbes minerais.
