O estático, o distante

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Uma foto perfeitamente casual em mãos. A foto de uma perambulação qualquer na rua, num dia, desocupado. Foto dessas, inteiriças, em um todo, de apreensão impossível parte a parte, como por cada peça, em análise. Inteira de simples nos elementos como que em diluição, infragmentável de densa como se sólidos seu preto, branco e cinzentos tons. E sempre aquele dilema incontornável ao olho atento do observador: se a escolha da observação em parte, de profundidade no detalhe exclusivo, se a escolha da vista de superfície, do alto, no todo amplo, vago. Pois, eis que minha opção para o entendimento: de um ponto, de uma partida assim no centro, em gradativo distanciamento, rumo ao todo, um movimento lento. E uma vez a atenção, de princípio, no detalhe do ponto preto, ponto-centro, ponto sombrio, do ponto sóbrio para o princípio do afastamento; ponto preto afora, somente mais escuridão à sua volta até a emergência do contorno claro da elipse de infinitos pontos pretos: do negro da pupila ao claro da íris, um olho, entre cílios longos, ainda que nem tanto, contíguos a uma pálpebra aberta de escancaro, a sobrancelha em forma lisa de fio, esboço de rosto pálido, feminil, de jovem, ainda que algo experiente, em uma já perceptível posição – de perfil. Maior distância, mais ampla a visão, agora uma testa de reentrâncias, franzida, também um nariz suspenso sobre a boca entreaberta, mas, lábios contraídos, de tensa. Em soma, na composição da amostra – testa, boca, olhos – uma coisa de susto em bem evidência na face; não o susto expresso de surpresa leviana, não incerteza qualquer de exaltação, nada de algo momentâneo; ao contrário, um susto contido (reprimido?), isso sim, como um informe – mas presente – abatimento, coisa já de tempo, na imagem da face, esta também imagem de algo mais de dentro. Imagem deturpada, verdade, como qualquer cópia do imóvel do semblante, do retrato, porém melhor resquício daquela prisão imagética, daquele seqüestro inoportuno do instante, do en passant – assim “inoportuno” pelo desconhecimento dela do ato meu de fotógrafo caprichoso, com a máxima propensão à captura de algum transeunte em imagem, sem deste qualquer prévio consentimento. Mas, conforme a tomada de distância, sempre progressiva e paciente, cá à vista a bochecha compressa, o queixo miúdo com detalhes ínfimos, mas nada como os cabelos morenos – ligeira, muito ligeiramente esvoaçantes, efeito de alguma brisa eventual – no brilhos, nos contornos, naquela discrição, ainda que sutilíssima, atrativa dos olhos, fixos na sua estranheza: molhados, pesados e etéreos no vento, sob efeito da força estética dos muitos fios em feixes belos, úmidos, reluzentes do esplendor daquele dia de muito sol. E nesse (senão, por esse) estranhamento, como por dissociação, a vista, imóvel, fita a imagem, então a dúvida: se foto ela, se foto eu – se ela porque (evidente) cativa nesse quadro, recorte de momento real, capturado nas dimensões mais humildes de um tempo ínfimo; se foto eu por (tacitamente) estático, cativo pela cativa na contemplação longa, meticulosa de sua tão curiosa imagem– a observação e o jugo em convergência. No mais, só supérfluos à volta, as vitrinas da rua sem foco, o pescoço bem curto, para além dos quais, nada, o fim, arestas. Eis muito de excesso; porém, ainda, algo de incompleto; excesso de algo incompletamente apreensível no rosto dessa passante de perfil. Sutil o tom melancólico no conjunto das feições, o vazio da visão difusa da pupila, inconsolável até à linda íris clara, essas pálpebras saltadas de um trauma recente com promessas de duradouro, lábios graves meio retraídos, como que em estremecimento. Melancolia em excesso, porém, indecifrável seu porquê, só perceptível (se para tanto possível) para além do enquadramento, dos limites da captura, para além do átomo de tempo residente nas pobres duas dimensões. Pois a família renegada, de fora; a dor da distância, fora; o ente devasso, fora; a pressão do tempo, fora; o ser mal-amado, de fora; todo o plausível de razões, só além do apreensível, portanto indescritível e, ainda assim, presumível. No entanto, nada de certo, nada seguro como na foto, por sua vez, uma involuntária omissa pela estática vontade de movimento, pela onipresença da mera superfície, pelo escamoteio da transeunte inconsciente de meu artifício de captura do mínimo momento de sua casual passagem; captura ilusória de um estático incorrespondente, porque ela se move.

"La condition humaine" (1993) - René Magritte

"La condition humaine" (1993) - René Magritte

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