Um grito d’O grito

· Ficções
Autores

Quando atravesso a ponte cujo fim não concebo, tropeço na presença fantasmática de alguém – de costas. Não lhe vejo o rosto, só o corpo, deformado, se apresenta. Não me prendo muito a esse ente pouco vivo, vestida em preto, de mãos às voltas do rosto como se a machucá-lo. Vou seguindo apenas, em minha travessia até o fim da ponte que não penso, só transponho – idéias longe, apenas, de mim e desse ente estranho de um rosto que não vi.

Sempre tive a impressão de que aos outros é que as coisas acontecem, eu só perambulo, pensativo. Algum dia talvez escreva as memórias andantes, as minhas memórias, aquelas de quem contempla o que surge à beira de seu caminhar. Plano futuro e incerto. Mas enfim, não planejo, só ando, ando sem rumo.

Não planejo o rumo, não mais, desde que o último homem (meu a amigo) e a última mulher (se foi para mim não importa) se subtraíram. O dia é nebuloso, ando agora pela junto à margem do rio que acabo de transpor; a água escurece em tons diversos, todos sujos, nada é claro, conciso. Só pela margem que vejo vida do vermelho e do marro da areia, mas é vida apagada, indecisa. Uns entes também andam – estes, com rumo. Os entes são como formas fragmentadas de gente – nunca mais vi pessoas.

(Pessoas entenda-se não ente, nem gente. Não sei explicar, só impressão que tomei por não falsa, logo, excluído o meio-tom, verdade. Difícil comunicar essa nuance sutil: difícil expressar impressão, ou impressionar com expressão.)

Entro na galeria: andar por uma é como transitar por espaços descontínuos, por quadros que nunca de todo se sucedem, senão em lapso. Sigo rápido. Mas eis que estaco. Dos quadros passantes, um me não passou, pois fitei-lhe de frente, tomado.

Nesse quadro vi o ente, aquele mesmo que instantes antes avistara de trás. E não só. Via ponte por onde passei, vi o rio escuro, vi as terras de morbidez vivaz. Mas era o ser-ente que se impunha, de forma a não mais a passa-lo, como o passara. De frente, agora, o encarava; as mesmas mãos volvendo a face, a mesma figura desfeita. Vi seu rosto, não deformado, mas em deformação. Sentia que a cena parada não parava, pois jamais estáticos os olhos, as narinas, o queixo sem proporção. Moviam-se, fluíam na desfiguração, no continuum do grito. Ah, o grito, a quimera. O grito deformava o ente, era na ordem de gritá-lo que o semblante se esvaía com o ar que lhe abandona o corpo na pincelada descontenção do horror. Era o grito dessa inquietude que o definia, e o definia distorcendo tudo o mais em volta.

Fiquei repleto dessa visão.

Aquela imagem refletia um homem em transe – refletia o homem em si, adensado em si. Espelhava o grito do ente informe que é também o meu.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: