Esboço para uma noção de gratuidade

· Ensaios
Autores

Destruição suntuária, para Bataille, simbolizada pelo Potlatch tribal

Destruição suntuária, para Bataille, simbolizada pelo Potlatch tribal

Georges Bataille, o controverso autor de A história do olho, concebeu naquele breve ensaio marcante intitulado A noção de despesa, incluído no livro A parte maldita, um ferrenho ataque aos  sistemas de pensamento simplificadores que tendem a racionalizar o comportamento humano em termos de variáveis expressamente utilitárias e essencialmente práticas. Todo o conceito de despesa improdutiva está no contraponto desse pensar racionalizante.

George Orwell – um dos jornalistas mais completos que já li – no notável romance 1984 nos dá uma ideia de algo semelhante (porém não de todo idêntico) à depesa batailliana. No futuro ideado por Orwell, um enorme contingente populacional que trabalha sob condições praticamente servis, permanecendo, miserável e inapta a consumir o que produz – tal contra-senso – que agrava ao limite as contradições do capital –, ao fim, tem uma motivação bastante prática, que é a de manter as massas em constante carência material, portanto, dependente e subalterna. Nesse mundo decadente, toda a enorme produção excedente é despendida numa guerra intercontinental, que, aqui, não existe para ser vencida, mas para ser perpetuada, pois desempenha a importante função para a ordem vigente de destruir o excedente material que, do contrário, seria escoado ao consumo das massas. Segundo Bataille uma noção de despesa improdutiva desloca a ênfase da análise econômica da procução para a perda “que deve ser a maior possível para que a atividade adquira seu verdadeiro sentido”, contrapondo-se ao princípio de utilidade clássico que norteia a razão econômica em sentido estreito.  No romance distópico de Orwell, o gasto adquire um valor social: o de perpetuar a miséria alienante das massas. Por outro lado, a noção de despesa improdutiva, concebida por Bataille, consiste no desperdício desmesurado que corresponde à demonstração socialmente reconhecível de poder e pujança – o apego ao luxo o exemplifica nas sociedades ocidentais; entre os nativos americanos, atende pelo nome de potlatch: o chefe da tribo humilha seu rival ao mostrar-se capaz de desperdiçar um exorbitante valor em posses materiais sem prejuízo efetivo da riqueza que possui.

Bem recentemente, lendo o extraordinário O Exército de Cavalaria, do russo Isaac Bábel, antologia de histórias ambientadas no conflito russo-polonês de 1920-21 entre o Exército Vermelho, engrossado pela cavalaria cossaca, e o Exército Branco contra-revolucionário, deparei-me com um conto de extrema concisão (praticamente irresumível) intitulado Prichtchepa, no qual o capricho vingativo de um cavaleiro cossaco, o personagem-título, contra os vizinhos que pilharam a casa de seus pais, assassinados pelos Brancos, resulta em uma busca brutal pelos espólios. Prichtchepa deixa um rastro de violenta retaliação por onde passa – entre assassinatos e profanações que sacia seu ímpeto de vingança. Restituídos os pertences à casa desocupada dos pais, todos cuidadosamente organizados em seu interior conforme a memória de sua infância, o cossaco, por fim, incendeia a construção e abandona a aldeia que há pouco vandalizara, livre, menos memorioso e, ao que suponho, tomado de orgulho transbordante. Eis um potlatch!

O conto de Bábel – que escolhi tanto para ilustrar minha impressão sobre a noção de despesa quanto pelo fato de ser uma leitura recente e arrebatadora – é ainda mais extremo que os exemplos que o próprio Bataille fornece (as jóias, o jogo, o sacrifício, o desperdício da riqueza, as guerras): aqui, não há qualquer ostentação, que no ensaio original aparece com freqüência associado à noção de despesa improdutiva. A associação de Bataille entre ostentação material e despesa me parece, aliás, bastante problemática, já que o gasto ostensivo possui uma contrapartida simbólica que justifica a despesa, logo, o que temos não um caso em que de que a despesa se justifica em si, mas em algo além dela, como, no caso do potlatch tribal, a humilhação do inimigo, valor simbólico compartilhado tanto entre o caluniador e o caluniado. No caso do Prichtchepa de Bábel a ostentação se ausenta, o que há é a absurda sensação de despesa sem propósito, não aquela motivada pela simbólica humilhação do oponente ou pela tradução da riqueza em termos de perdes materiais. Aqui, o intento é bem mais sutil: apagar o passado, a vingança,  coroada com a cuidadosa redisposição dos objetos presentes conforme a memória, esvai-se em cinzas numa operação idiossincrática – não há aqui a ostentação sócio-simbólica que Bataille imprime em seu ensaio.

Pergunto-me sobre algo ainda mais paradoxal que o conceito de Bataille: não uma despesa improdutiva (repleta de sentido antropológico), porém  uma despesa gratuita, sem valor social apreensível, uma ocorrência de causasnebulosa que antes se traduz pelo esforço caprichoso de Prichtchepa em destruir seu passado nas chamas logo após tê-lo vingado com tanto ímpeto de severidade – à vingança segue-se o esquecimento da humilhação que a impulsionara desde o princípio.

Esse halo de gratuidade (despropósito lhe seria um bom sinônimo) que escapou a Bataille é uma ocorrência generalizada na literatura moderna, em sentido amplo. Para ficar em alguns exemplos ao alcance de minha compreensão, temos narrativas curtas fantásticas que exploram essa gratuidade: há O capote de Gógol, no qual toda a vida do funcionário Akaki Akakievitch  se dá numa sucessão de impertinências, rendendo não mais que as impagáveis tiradas irônicas do próprio narrador. Ainda entre os russos, temos ainda a angustiante (e catártica) vida e morte do Ivan Ilitch de Tolstói, mergulhada na gratuidade desconsolada e contida dentro das comodidades sociais provadas supérfluas no sentido mais mortificador imaginável.

A metamorfose de Gregor Samsa é tão permeada de  pavoroso depropósito quanto o processo de Josef K. ( neste o simples existir já é  um crime pelo qual se deve pagar, depesa gratuita) – o desfecho kafkiano sempre nos confronta com um mundo inumano com o qual é impossível qualquer comunhão – a consciência mais que se apartar, solitária, do ambiente ameaçador, estranha-o. Essa dissociação “entre o espírito que deseja e o mundo que decepciona” caracteriza o absurdo – tal como o chamou Albert Camus –, que, em primeira instância, conduz ao falatismo: em O estrangeiro, o inquietante despropósito na  paradigmática cena do assassinato sob o sol opressor da praia argelina pinta sem meias-tintas um retrato do absurdo camusiano.

Não pretendo prolongar-me em definições mais acuradas noção que proponho, sob pena de incorrer no mesmo erro que percebo em Bataille. O que pretendi aqui foi o processo inicial de expor outra possibilidade de compreensão, sem me arrogar qualquer intenção muito acadêmica. Pois a nenhum  esboço de  reflexão, tal como a nenhum ensaio, se pode atribuir validade definitiva.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: