Paisagem de uma mesa

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Há um mapa na mesa  apinhada do quarto de hotel. É grande, é do país inteiro, que contém a cidade, que por sua vez, contém o mapa e seu portador – um forasteiro – recém-chegado do qual não se tem sinal. Na certa que deixara o quarto qual deixara a terra natal, outra capital, outro ponto central, destacado na impressão cartográfica. De ponto a ponto, da passada casa ao presente quarto, uma linha, irregular e vertical, corta o esboço do mapa, parte-o em dois nas curvas das estradas. É travessia longa, medida na escala dos centímetros que se multiplicam aos quilômetros corridos, às esperanças cultivadas.

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Sobre a mesa há também uma concha subtraída do litoral – nada como o espairecer matinal de uma caminhada. Ainda conservava a areia da praia em volta e dentro da cavidade sonora. Sonora de um som conhecido, de som que volta, ecoa. Mais que ecoar, retroa, como o pulsar da vida, ou de duas delas vividas, como em elo integral, pétreo e fresco como o mar, sem a inconstância da maré. Não só o mar soa no interior da concha, soa também o já sabido sopro de alguém que, há muito ido embora, lá mesmo vive – há mar na concha. Existe algo de cíclico na concha; de sua forma espiralada, de linhas que, como se projetam, convergem ao centro, até seu som que, reavido em eco, reverbera. Há mar, há mar aqui tão longe.

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A lista telefônica se suja com a areia da concha, que, sobre as páginas abertas, repousa. Nomes de estranhos impressos, ao que se tem por exceto um único conhecido, inscrito numa volta rápida de tinta vermelha. Há nome. E nisso, só ele mesmo é familiar, visto que o endereço – rua fulano de tal – se faz estranhar; fica numa rótula esquecida, paragem distante da mesa, do mapa, da concha, da própria folha que o esboça. Viagem tão longa termina num nome, e espera-se não só nome, com suas palavras frias. Termina pela volta, acaba em princípio – anacronismo, anamnese: anáforas de Ana.

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Umas pecinhas de montar também lá têm local. Elas erigem algo, que quem agora ausente montou, com cuidado e concisão, com cálculo, não sem ardor. Formam duas colunas, distantes, mas unidas no elo de um arco, essa forma de contorno transgressor, de curva que, prolongada, se faz circular – uma roda. Desforram-se os cubos, unidades, em algo que lembra voltas, um todo, de retornares; ainda sobram as arestas, verdade, mas isso, só detalhe, pois na visão completa, são partes desviantes de retas que se propõem volta, dos diversos que se propõem uno.

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