Nota sobre um manuscrito medieval

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Manuscrito

Rosvita de Gandersheim, nobre de ascendência – que declinou o casamento em benefício da vocação –, tida como a primeira poetisa alemã, em seus escritos, datados do século X, legou inúmeros relatos de ferrenha defesa da educação sob a égide da cristandade, a mesma que lhe moldara o espírito, ainda que detentores de um brilho literário duvidoso, uma vez que jamais conseguiu a autora alcançar, pela imitação, a excelência das letras clássicas. Um de tais relatos consiste numa história peculiar da serva que, por meios incertos, aprendeu a ler. Fato em si já estarrecedor, pois jamais clérigo algum suspeitara até então (o ocorrido se passa quase um século antes de sua escritura) que o letrismo estivesse ao alcance das hordas servis, descendentes de pagãos dados à barbárie e aos quais se dirigia a tutela da cristianização, por cuja bandeira, que os salvara, deveriam, se assim designado, perecer. Não nos interessam os pormenores, saibamos que Rosvita narra sem notável exatidão a vida breve da serva a quem chamou Gwenda.

Consta que nasceu num vilarejo ermo em que única construção digna do nome era uma abadia tosca, muito mais velha que o próprio arruamento de casebres que a cercavam. Dentro do edifício, havia uma biblioteca humilde, ainda que meticulosamente mantida pelo abade, homem de letras, que dedicava mais atenção aos livros que à salvação. Se havia lugar que rivalizava em importância com a abadia este seria, sem dúvida, a taverna,  na qual servia o pai de Gwenda. Desde jovem, convivera ela com os homens rudes ébrios e as mulheres dessas que chamam “da vida”, em estado não menos deplorável de torpor; seus olhos verdes se acostumaram a ver o vinho escorrer das taças e impregnar as barbas dos borrachos, as brigas que enredavam às vezes o estabelecimento inteiro, os corpos dos combalidos das contendas ou dos excessos tombarem no chão. Vira tudo isso, porém, sempre por detrás da segurança do balcão, cuja transposição lhe era execrada pelos cuidados da mãe, um ser deveras maltratado pelo destino, que lhe tomara todos os filhos à exceção de Gwenda, e pelo marido, cujos golpes lhe tomaram a juventude que nunca pôde desfrutar. A tímida Gwenda, a quem o rosto claríssimo escorrido por cabelos ruivos  conferia feição ingênua, teria herdado a mesma sina, não tivesse se mostrado tão caprichosa criada, cuidadosa com os afazeres domésticos, além de uma jovem de propenção incomum para as coisas da inteligência – o que, na prática, resultava em tamanha eficiência no trato da casa que não houve como não chamar a atenção do abade, que lhe oferecera serviço e abrigo na abadia. É de se  estranhar a oferta – Rosvita, no original, porém, não manifesta estranheza –, pelo inexplicável despontar de um asseio que o abade jamais demonstrara. Não importa, pois fato é que Gwenda aos 12 anos foi morar, sem grande prejuízo do pai e para o alento e solidão da mãe, na abadia, com o mais asceta dos sacerdotes daquela vasta região – o único, talvez.

Nos cinco anos que passou em companhia única do abade, Gwenda foi por ele inicada na leitura do latim, e nos rudimentos de sua escrita. O que o teria levado a ensinar-lhe tais artes do clero não se sabe. A julgar pela fraqueza documental do relato – em que nada é esclarecido acerca  dessa educação inusitada ou mesmo da relação da jovem com o abade –  Rosvita tinha o escandaloso aprendizado das letras por mais notável que as consequências de uma intimidade tão ferrenha.

Gwenda encontrou na biblioteca seu arcabouço de leituras, na sua maioria, filosóficas e teológicas; às vezes, encontrava algum exemplar literário. E o que os livros lhe revelavam em nada a confortava, antes a dissadia da a tentativa de aprender tudo o que neles se lia. As leituras, após já alguma prática, preenchiam sua folga e, afinal, sempre poderia contar com a bondade do abade para esclarecimentos. Leu Luciano de Samósata com perplexidade; contemplou traduções latinas dos diálogos socráticos; apreciou a retórica de Cícero e a poesia de Ovídio; descobriu a Eneida; e perscrutou as complexas dialéticas da teologia neoplatônica no Corpus Dyonisiacum.

Tinha 17 anos quando seu protetor faleceu de trombose e ela retornou para a taverna em que se criara- os tempos idos da biblioteca não lhe permitiram conhecer nenhum outro lugar neste mundo. Reencontrou somente a mãe, trabalhando só para manter a casa, mais miserável do que nunca – o pai, pelo que consta, morrera de algum miasma. O leitor com empatia será capaz de imaginar a emoção do reencontro de mãe e filha, após tantos anos de esplendor para uma e de agrura para a outra. Trabalhando, seguiu Gwenda a ajudar a mãe, para quem jamais contou sobre suas novas faculdades; temia sobretudo que a insciência da velha mulher resultasse na incompreensão. E assim que sucedeu.

Um dia, já meses após o retorno, a velha, remexendo nas coisas da filha, encontrou um velho pergaminho, uma pena e um tinteiro, coisas que, por desconhecimento, lhe pareceram bizarras. Pela mesma época, já havia chegado à aldeia o novo abade, imponente representante da cristandade, maduro e autoritário. A notícia sobre os inusuais pertences de Gwenda se propagou, e o novo abade, suspeitando daquela que já morara na abadia, compartilhando uma existência solitária com o seu predecessor, não se prostrou à possibilidade de perscrutar, o que, no seu entender, correspondia à arte de bem advogar a mais devida punição.

Rosvita encerrou seu relato exaltando o fogo – símbolo do juízo divino purificador dos males mundanos. Pois a própria castidade é asséptica como as chamas, que consumiram o corpo pulsante de Gwenda. Condenada, a pobre jovem não optou pela rendição, nem se humilhou frente aos seus ou à autoridade sacerdotal para fugir às últimas conseqüências de seu letrismo. A postura relutante de Gwenda foi vista por Rosvita como vaidade, somente curável pelo fogo divino dos inquisidores.

(Alguns mais adeptos das minúcias estranhariam que essa verdadeira apologista cristã tivesse percebido o divino no mesmo fogo em que Heráclito de Éfeso, o desprezador dos cultos, dos ritos e da religião dos povos, vira o mais essencial dos quatro elementos. Disso conclui-se que a história dos homens,  que a escrevem na contemplação das cinzas dos rivais, tem lá seus equívocos.)

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