Paródia do Canto I de “Os Lusíadas”

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das Armas e barões aos Borrachos, borrachões

de Armas e barões a Borrachos, borrachões

A paródia que tenho aqui não é de nenhuma autoria aclamada, pelo contrário, foi escrita por quatro anônimos, estudantes de teologia da Universidade de Évora por volta de 1589, quase duas décadas após a escritura do épico nacional camoniano. É um trabalho bastante anárquico, que, apropriando-se da construção do Canto I de Os Lusíadas, reproduz as festas promovidas nos arredores da universidade. A louvação de Baco (deus antagonista dos portugueses no original camoniano) como dividande-mor das comemorações devassas e das bebedeiras desmedidas acentua o tom libertário da paródia, de cujos versos transbordam momentos hilários. Abaixo alguns trechos:

Borrachas, borrachões assinalados,

Que de Alcochete junto a Vila Franca,

Por mares nunca d’antes navegados

Passaram ainda além de “Canha” manca:

Em pagodes, e ceias esforçados,

Mais do que se permite a gente branca,

Em Évora cidade se alojaram,

Onde pipas e quartos despejaram:


Também as bebedeiras muito famosas

D’aqueles que andaram esgotando

O império de Baco, e as saborosas

Águas de boa Casta devastando;

E os que por bebedeiras valiosas

Se vão das leis do reino libertando;

Cantando espalharei por toda a parte,

Se a tanto me ajudar Baco, e não Marte.


Calem-se as Novelas, de grande Bargança

As grandes bebedeiras que tiveram;

Cale-se o do Rangel e o da Carrança

A multidão dos vinhos que beberam,

Que eu canto d’outra gente e d’outra lança,

A quem frascos de vinho obedeceram:

Cesse tudo o que a musa antiga canta,

Que outro beber mais alto se levanta.


E vós, bacanais ninfas, pois criado

Em mim tendes a sede tão ardente,

Se sempre em largo copo espraiado

Festejei vosso vinho alegremente,

Dai-me agora um bom papo despejado

Para beber á perda co’esta gente,

Porque de vossas águas Baco ordene

Um rio para bêbados perene.


Dai-me uma vasilha muito cheirosa,

Seja de bom licor, não saiba a arruda,

De “Canha” seja que é gostosa,

O peito esforça, a cor ao gesto muda;

Dai-me igual nome ás taças da famosa

Gente vossa que Baco tanto ajuda;

Que se espalhe, e se cante no universo,

Se tanta bebedeira cabe em verso.

[…]


Vós, alto taberneiro, cujo império

O bêbado em se erguendo vê primeiro,

Ou beba n’este nosso hemisfério,

Ou beba lá n’esse outro derradeiro:

E nem por isso sente vitupério

O fidalgo, o estudante, o cavalheiro,

Antes o Turco, o Mouro, e o Gentio

Lhes peça não beber do vosso rio:

[…]


Então vereis se sois bem conhecido

De todos os amigos de palermo;

Que não é pouco ser obedecido

No estio, primavera, outono, inverno:

Ouvi, vereis o nome engrandecido

D’aqueles de quem sois senhor supremo;

E julgareis qual é mais excelente

Se ser do mundo rei, se de tal gente.

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