O Distópico

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John Hurt e o Grande Irmão

John Hurt e o Grande Irmão

Em fins do século XVIII, o filósofo utilitarista britânico Jeremy Bentham escreveu que concebera um dispositivo de poder sem precedentes, “um novo modo de garantir o poder da mente sobre a mente, em um grau nunca antes demonstrado”. O projeto consistia, em essência, numa figura arquitetural com dois edifícios concêntricos, uma torre central rodeada por uma enorme construção em forma de anel dividida em celas (Bentham as chamava “apartamentos”), cada uma das quais atravessando a espessura do prédio. A ideia: garantir máxima visibilidade de todos os detentos em suas celas a partir de um ponto central, a torre, ocupada por um único inspetor (ou qualquer cidadão de bem interessado), posicionado estrategicamente atrás de persianas para ocultar sua presença da totalidade do complexo prisional, permitindo-lhe ver tudo sem ser visto. Afirma Bentham que o exercício ininterrupto da observação pelo inspetor tende a se tornar desnecessário: a própria estrutura arquitetônica sugere ao detento o temor de sua potencial visibilidade, interioriza-lhe a vigilância para que se pense  de todo exposto aos olhos ocultados na torre, ou em constante iminência de sê-lo – ele se torna o agente de sua própria sujeição. O objetivo desse aparato (cujos mecanismos expus com muita brevidade) seria, numa palavra, punir o prisioneiro, discipliná-lo para o trabalho e reformar-lhe moral.

Bentham publicou ainda em vida as 21 cartas, datadas de 1787 e remetidas a um conterrâneo anônimo, nas quais expõe os princípios e objetivos de seu modelo arquitetural para uma “casa de inspeção”. A coleção tem por título o neologismo cunhado pelo próprio autor, com muita propriedade, para nomear todo o projeto – O Panóptico.

Planta do panóptico, encontrada nos escritos de Bentham

Planta do panóptico encontrada nos escritos de Bentham.

Ao fim do ano passado, a Autêntica lançou a segunda edição, agora revisada, de O Panóptico, com direito a um portentoso apêndice formado de quatro ensaios analíticos sobre o projeto panóptico e sua contextualização na tradição filosófica utilitarista; a organização ficou a cargo do prof. Tomaz Tadeu da Silva, que assina também a tradução do texto principal. O relançamento, por si, já merece atenção, em especial a dos pesquisadores de uma vasta área das ciências humanas que ganham mais uma referência em seus estudos. O interesse da Autêntica em reaver Bentham, não obstante, assume um significado mais interessante quando aliado a outro importante lançamento. Mal completavam três meses da volta de O Panóptico às livrarias quando a produtora e distribuidora maranhense Lume  Filmes lançou, em DVD, um filme até então raríssimo em VHS no Brasil; trata-se de 1984, baseado na clássica distopia homônima de George Orwell, o mais emblemático retrato ficcional de sociedade disciplinar, submetida à vigilância constante, uma sociedade panóptica.

Até alguns dos leitores mais afoitos de Orwell no Brasil desconhecem a adaptação para o cinema dirigida e roteirizada por Michael Radford, que traz no elenco principal John Hurt numa atuação brilhante, Richard Burton em seu último trabalho, e a talentosa e menosprezada Suzanna Hamilton. Detalhe curioso é que filme foi rodado entre abril e julho de 1984, precisamente o intervalo em que Orwell inseriu sua narrativa. Aliás, tudo no filme de Radford busca traduzir com fidelidade o espírito da reflexão orwelliana, com seu futuro desolador marcado menos pelo progresso científico eu pela decadência material, pelos mecanismos de controle e disciplinação, pelas teletelas, instrumentos que servem ao duplo propósito de vigiar a população e propagar a imagem estática do líder, o Grande Irmão.

Creio que a melhor maneira de descrever Orwell em comparação a Bentham é esta: 1984 subverte o Panóptico para melhor operar sob sua lógica – o panoptismo. Distingo o mecanismo particular de sua lógica operacional, incrivelmente mais ampla e desenvolvida pelos desdobramentos técnicos e sociais posteriores à invenção de Bentham. Foucault já fizera tal distinção em Vigiar e Punir, no capítulo que dedica ao panoptismo, ou o “processo técnico, universalmente difundido, da coerção” fundamentado menos na vigilância centralizada que na sutil e constante intervigilância exercida por (e em) toda a sociedade. O panóptico benthamiano fora a promessa da utopia utilitarista: a garantia do princípio de utilidade social pela transparência absoluta ante o que, desde o século XVIII, se conhece por opinião pública, pois o direito ao olhar que o dispositivo arquitetônico impõe a tudo mais entorno estaria acessível a todo e qualquer cidadão interessado. Quanto ao  panoptismo (a lógica da vigilância máxima), ele nasceu do projeto original de Bentham (seu instrumento primitivo) e estendeu-se, descentrou-se em novas técnicas cada vez mais difusas, descentradas, de vigilância, consolidou-se como poder disciplinar, nos termos de Foucault.

O panóptico orwelliano difere do de Bentham no refinamento técnico que descentraliza a vigilância – mesmo a ponto de tornar desnecessário qualquer vigilante. A maximização (termo, diga-se, cunhado por Bentham) da vigilância advém por novíssimos meios técnicos.  E a técnica (eis um fato) jamais é passiva em relação aos fins a que se destina: ela os remodela. Quando a  engenhosa arquitetura da prisão cede à disseminação de dispositivos de imagens, o sentido próprio da vigilância se transforma: torna-se vigilância mediada  pelo aparelho. O filósofo Vilém Flusser, em Filosofia da Caixa Preta, usou como pretexto a fotografia para tratar do aparelho e das “imagens técnicas” que ele (a câmera, no caso) produz. O aparelho, seja o mais rudimentar ou o mais complexo, poussui um mecanismo opaco; nos dizeres de Flusser, uma caixa preta: os processos que codificam a realidade em imagem são em si mesmo inobserváveis, enclausurados na câmara escura, tão-somente nos são evidentes seus inputs e outputs – a partir dos quais podemos (talvez) clarificar a caixa – deduzir seu mecanismo.

Vilém Flusser, autor de "Filosofia da Caixas Preta"

Vilém Flusser, autor de "Filosofia da Caixas Preta"

A absoluta intransparência da caixa preta é cerne do indecifrável panoptismo distópico de Orwell. O filme de Radford é exemplar em traduzi-lo: são todos trabalhadores de um maquinário técnico cuja única expressão reconhecível é a onipresente imagem do Grande Irmão. Os membros do Partido Externo (uma classe de funcionários públicos) bem como os altos dirigente do Partido Interno – além de uma massa alienada de trabalho industrial (os “proles”) sem vínculo com o partido –  engrenam o enorme aparato eletrônico de vigilância e controle cuja existência por si se justifica. Em seu trabalho no Ministério da Verdade, Winston Smith (John Hurt), o protagonista, recebe documentos  de remaranhados de tubos em rede conectados à tela de seu cubículo; sua função é falsificá-los conforme as ordens que recebe sabe-se lá de quem (ou do quê). O poder se desindividualiza, a servilização do ser humano é generalizada, e a vigilância não mais serve a alguém, no centro, que controla, porém, todos servem à vigilância controladora – consequentemente, aos seus aparelhos dispersos.

Nossa sociedade é a das das caixas pretas. Os aparelhos de Flusser se multiplicam entre nós, basta pensar em termos dos milhões de câmeras digitais, celulares com câmera e webcams, que circulam livremente, produzindo imagens técnicas destinadas à interconexão por meio  dos intermináveis links na Web. Brincamos com tais aparelhos. Inconscientemente, o  que pretendemos quando os operamos é esgotar as possibilidades de uso que suas caixas pretas permitem, aplicando todas as sua potencialidades para desenvolver o acervo de imagens obtíveis. Por essa razão, o operador literalmente joga, brinca, conforme as regras específicas do aparelho, estando também, sem saber, já condicionado a seguir o programa que elas tacitamente lhe propõem na obscuridade de seus mecanismos. Não seria nenhum exagero enxergar em cada operador o servomecanismo programático da caixa preta que opera.

Os tempos mudaram a maneira como interpretamos 1984; se no pós-guerra era o romance alegórico do totalitarismo, hoje pode ser lido como o precursor de um novo panóptico, não em sua concepção original, proposta por Bentham, que procurava aliar coerção e beneficência, transparência e invisibilidade, mas um dispositivo que atomiza a vigilância pelo  jogo opaco das imagens técnicas. Os aparelhos eletrônicos, as caixas pretas – digitais e condensadas em rede –, que mediam percepções e realidades, configuram uma nova forma de vigilância diluída na pluralidade de usos pretensamente livres das câmeras. As telas que, em Orwell, propagam a figura do Grande Irmão se dispersam, entre nós, indefinidamente sob a forma de poderosos dispositivos de imagens – não mais a égide humana do líder os conjura.

George Orwell, capa da Time - 28/11/1983

George Orwell, capa da Time - 28/11/1983

1 Comentário

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  1. Kelva Cristina

    Parabéns, Fernando, pelo que tu escreveste. Gostei muito de ler, que me deixou em sintonia com o que foi abordado. Sabe, vi este filme ainda menina. Acho que tinha uns 13 anos, e por isso não atentei muito a todas as informações. Uns 2 anos atrás tive vontade de rever o filme, mas não o fiz. Foi passando o tempo e tu, agora, me deixaste com água na boca. Vou rever o filme – agora com outros olhos.
    Um abraço.

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