Notas sobre máscaras – Postagem Temática

· Fragmentos
Autores

No prefácio de aforismos que magistralmente abre O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde defendeu os intentos esteticistas de seu único romance das acusações dos críticos que o julgavam tão-somente por sua “amoralidade”. É um verdadeiro manifesto pela liberdade expressiva, pelo juízo estético e, não menos, pelo direito do artista de deixar-se mascarar por sua obra (na tradução de João do Rio):

Revelar a Arte, ocultando o artista, é o fim da Arte.

[…]

Toda a Arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo. Aqueles que procuram ver por baixo da superfície,  fazem-no por conta e risco.

A Arte, para Wilde, é a máscara inútil e admirável a um só tempo.

Toda a máscara, como toda a Arte (que é máscara), é superfície e símbolo.

Uma superfície que, esconde tão-somente na medida em que pode significar algo em substituição. Nem todos se dispõem a decifrar seus signos

Não que tudo que uma máscara oculte seja verdadeiro, ou que  tudo que signifique seja falso.

No mascaramento, sempre algo de falso é encoberto e algo de veraz emerge. Mesmo a máscara que mente o faz exibindo a si mesma como sua própria inverdade, ou seja, nos conota uma verdade.

Uma imagem é uma máscara: uma superfície que representa algo cuja existência podemos mostrar, mas nunca, efetivamente, afirmar.

Nossa visão é a máscara que impomos às coisas – sua máscara imagística media o eu e o mundo. Somos os mascaradores de nosso próprio mundo.

É defensável o posicionamento segundo o qual o mundo tal como o vemos seja uma inverdade, porém é absolutamente indefensável que a experiência própria de vê-lo (mesmo que incorretamente) também o seja.

(É assim que uma mentira revela sua natureza dissimuladora e, por extensão, algo do mentiroso, de quem produziu ou escolheu a máscara.)

Mascarando, o mascarador profere os retalhos de sua própria confissão. Restituir a confissão rasgada é decifrar a máscara. Toda a máscara é um pouco indecifrável.

Já é fato amplamente sabido que , não raro, quem mascara é  o mascarado – tal o artista, que se entrega à máscara de sua Arte.

A máscara é um paradoxo: escondendo, revela(-se); vedando uma anseio de verdade, escancara a vontade pela mentira.

Uma máscara, ela mesma, é tão voyeur quanto é recatado  o que quer que  (pretensamente) se deixa mascarar.

(Aos que se dispõem a decifrar, por conta e risco: o que revela um saco de pano perfeitamente liso mascarando dois rostos dos quais nada se sabe?)

6 Comentários

Comments RSS
  1. Tay

    as máscaras em si mesmas, significam, comunicam algo. pqp! q máxima!
    a nossa realidade é uma máscara DA realidade que nunca, de fato, descobriremos qual é..
    outra máxima!

    sobre o decifrar..
    pra mim ele revela uma história.. o imaginar
    a forma abrupta como aparece no quadro, não apresentada, nos leva a questionar o quadro, o artista, a arte em si..
    e a depois deixar tudo isto de lado e fantasiar..
    fantasiar sobre o que vai ser a nossa verdade
    mascarada, é claro.

  2. Tay

    ahhhh!!
    e wilde.. grande wilde..
    ahhh! e ótimo texto, ótimo blog!
    parabéns!

  3. Mariana

    “Nossa visão é a máscara que impomos às coisas – sua máscara imagística media o eu e o mundo.”

    Muito interessante o teu texto.
    É do estilo “pense bem sobre isso” hehe.

    Tô indo pensar.

    Belo blog!

  4. Greg

    Quando estava pensando no que escrever para a postagem temática especulei se a identificação de aquilo que nos revelam nossos sentidos com máscaras seria textualmente produtiva.
    Depois de alguns rascunhos percebi que não estava conseguindo escapar de uma prolixidade bem indesejável.

    Você, felizmente, escapou dessa prolixidade e conseguiu abordar o tema de forma bem mais articulada do que eu teria conseguido. Muito bom mesmo.

  5. Rafael Gloria

    Gostei do modo como fezo paralelo com a arte.

    abraço, Zé e espero que continue participando do Postagem Temática

    abraço!

  6. Léo

    Algo no jeito que tu escreve me lembra Nietzsche! Acho que é a forma como tu coloca as idéias, da forma como elas veem, tu escreve e vai escrevendo conforme vai indagando na tua cabeça. Muito bom mesmo! Um texto que faz pensar, que encomoda a cabeça, que faz diferença para quem lê. Como diz aquele cozinheiro e apresentador (às vezes mais apresentador do que cozinheiro): Voltaremos! 🙂 Abraço

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: