As extensões do homem (I)*: a máquina cartesiana

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Foi René Descartes, na quinta parte de seu paradigmático Discurso do Método, quem traduziu nos melhores termos as limitações mecânicas das máquinas então concebidas pela mente moderna em formação:

[máquinas] não agem por conhecimento – afirma – , mas apenas pela disposição de seus órgãos […] do que resulta ser moralmente impossível que haja disposições bastante diversas numa máquina para fazê-la agir em todas as ocorrências da vida, da mesma maneira que nossa razão nos faz agir.

A concepção cartesiana de máquina é tributária de dois pressupostos: ao traço rigidamente dualista que, em sua filosofia, partiu a totalidade do real em duas substâncias distintas:  uma dita cognoscente (a mente, ou alma) e  outra dita extensa (matéria e suas transformações); o que leva ao segundo pressupostpo, o mecanicismo através do qual buscou compreender o encadeamento de todas as transformações da substância material. Descartes estipulou assim um limite para as ambições humanas de reprodução e de controle da natureza: ao conhecimento empírico cabe  domínio da substância material mecanicamente governada pelas leis testáveis da física e limitada a elas; a máquina, tão-somente constituída de matéria, seria um autômato que opera com funções limitadas dependentes da disposição de suas partes mecânicas, cada uma das quais organizada conforme o funcionamento mais desejável do todo. Trata-se de uma concepção de máquina analógica (com mecanismos dispostos analogamente à função, como as engrenagens do relógio, o paradigma maquínico do século de Descartes). As máquinas cartesianas somente poderiam prefigurar imitações simplificadas do corpo que a mente pensante engendra e serviliza. As extensões materiais do homem, conforme o paradigma mecânico,  consistiriam veículos passivos, substrato da dominação do intelecto sobre matéria, inócuos aos processos de pensamento do eu cognoscente que, em sua consciência livre, os controla.

Foi ao longo das décadas finais do século XIX e, mais intensamente, do século XX que esse paradigma, digamos, cartesiano, disjuntivo, unilateral da relação homem-máquina  sofreu um abalo radical com o controle da energia elétrica e o consequente advento de máquinas eletrônicas e digitais. O desenvolvimento técnico clarificou a real função das tecnologias:  não a de estender passivamente o homem, mas a  de condicionar novas  possibilidades percepção e organização da experiência. Marshall McLuhan radicalizou a perspectiva essencial da cibercultura que o sucedeu e sob cuja égide o estudo das relações entre o homem e a máquina que estende ativamente suas faculdades físicas e mentais não mais  admite espaço para dualismo substanciais que tendem a neutralizar seus efeitos sobre a consciência.

O fantásma na máquina: assim ficou popularmente conhecida a rigorosa dicotomia cartesiana entre mente e matéria, por consequência entre a complexidade da mente e a anócua simplificação maquínica.

O "fantasma na máquina": assim ficou popularmente conhecida a rigorosa dicotomia cartesiana entre mente e matéria, por consequência, entre a complexidade da alma incorpórea e a simplicidade mecânica da máquina, inócua à "substância cognoscente".

* Série de três postagens sobre a relação entre o homem e suas extensões mediáticas.

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