As extensões do homem (II)*: o meio como mensagem em McLuhan

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O primeiro parágrafo da obra-prima de Marshall McLuhan, Os meios de comunicação como extensões do homem, é exemplar pela concisão com que condensa algumas linhas mestras de seu pensamento:

Numa cultura como a nossa, há muito acostumada a dividir e estilhaçar todas as coisas como meio de controlá-las, não deixa, às vezes, de ser um tanto chocante lembrar que, para efeitos práticos e operacionais, o meio é a mensagem. Isto apenas significa que as conseqüências sociais e pessoais de qualquer meio — ou seja, de qualquer uma das extensões de nós mesmos – constituem o resultado do novo estalão introduzido em nossas vidas por uma nova tecnologia ou extensão de nós mesmos.

Por “meio”, McLuhan compreende formas de extensão das faculdades humanas que servem de veículo a suas potencialidades (o que inclui a própria fala, como veículo de comunicação do pensamento). É de se notar que, por essa definição, o termo “meio” vem a designar um amplo matiz de artefatos não comumente identidicados com a palavra: as roupas, que seriam uma extensão da pele, a roda, uma extensão do sistema locomotor, o livro, uma extensão da visão; o computador, invenção da tecnologia eletrônica do século XX, consiste numa extensão ainda mais radical, pois prolonga o próprio sistema nervoso central. A exposição um novo meio (ou tecnologia, se vista num sentido bem amplo) remodela as categorias individuais de percepção e reconfigura sociedades inteiras: essa seria a definição do que McLuhan chama “mensagem”, isto é, os efeitos amplos do meio. Sua célebre máxima “o meio é a mensagem” se explica “porque é o meio que configura e controla a proporção e a forma das ações e associações humanas”. (É comum que se acuse McLuhan de determinismo tecnológico; é uma questão complexa, que não discutirei nessa postagem. Apenas aproveito para reiterar a tese revisionista de Pierre Lévy, para quem os meios não determinam transformações contextuais inteiras, mas condicionam possibilidades amplas de mudanças socioculturais concretizadas ou não conforme as conjunturas específicas).

A contribuição de McLuhan é original, polêmica e decisiva: deslocar o sentido da “mensagem” do conteúdo transmitido para a constituição própria do meio que o suporta, seu impacto intrínseco, seu efeito sobre as faculdades humanas que pretende estender. Subsequente a esse deslocamento,outra contribuição fundamental: se o meio é a mensagem justamente porque transforma seus conteúdos, desloca formas de apreensão e organização dos sentidos, tem-se que um meio jamais é um canal passivo de informação, mas um processo ativo que reconfigura nossa forma como se conhece, como se interage com o mundo e com os demais meios. A análise do conteúdo do meio torna-se não apenas secundária para o estudo dos efeitos amplos das novas tecnologias (objetivo mais evidente de McLuhan) como também confusa e ambígua, uma vez que, afirma McLuhan, “o ‘conteúdo’ de qualquer meio ou veículo é sempre um outro meio ou veículo”, da forma como, por exemplo, “o conteúdo da escrita é a fala, assim como a palavra escrita é o conteúdo da imprensa e a palavra impressa é o conteúdo do telégrafo”. Ainda que o conteúdo de um livro seja, por exemplo, um discurso proferido oralmente, a dissimetria entre os efeitos da escuta e da leitura do “mesmo” conteúdo comportado em meios distintos é notável.

Marshall McLuhan

Marshall McLuhan - "O meio é a mensagem": os apartos tecnológicos que nos estentem (meios) não são veículos passivos perfeitamente instrumentalizados pelo homem - ao contrário, interagem ativamente com ele e condicionam-lhe novas faculdades sensórias e mentais.

* Série de três postagens sobre a relação entre o homem e suas extensões mediáticas.

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