As extensões do homem (III)*: da galáxia de Gutenberg à aldeia global, ou da extensão como ambiente

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McLuhan mobilizou linhas mestras de seu pensamento sobre o impacto das inovações tecnológicas sobre o ser humano para antecipar os efeitos da formação de um novo ambiente sensórium: a aldeia global.

McLuhan mobilizou linhas mestras de seu pensamento acerca do impacto das inovações mediáticas sobre o ser humano para antecipar os efeitos da formação de um "novo ambiente 'sensório'": a aldeia global.

Marshall McLuhan admitiu inúmeras vezes que uma tese como a sua sobre os efeitos de meios tecnológicos sobre o homem, na qual o meio se identifica como a mensagem, teria sido indefensável no contexto de uma mentalidade disjuntiva própria da sociedade mecanicista, esquemática, uniforme e fragmentadora,  engendrada pelo surgimento do homem tipográfico. A Galáxia de Gutenberg é sua denominação metafórica para a sociedade que viveu sob o paradigma da mecanização e da impressão tipográfica da escrita (a partir do século XV), que instituiu o individualismo e o nacionalismo, difundiu a alfabetização fonética e fissurou a oralidade nos moldes tribais em benefício de uma cultura baseada amplamente na palavra escrita oriunda da tipografia; as tecnologias especializadas, sequenciais, contínuas fragmentataram o homem , provendo-o de extensões parciais de seus sentidos. A fragmentação é, para McLuhan, a essência da tecnologia da máquina mecânica (aquela descrita por Descartes no século XVII).

Na virada do século XIX para o XX, o advento do cinema revelou-se marco da transição da “sucessão linear [escrita tipográfica] para a configuração [grifos meus]”, a substituição da máquina analógica pelas tecnologias eletrônicas, anunciadas pela emergência de novos meios (a fotografia, o rádio, a televisão e o computador), restituiu à consciência do homem civilizado sua origem tribal, balizada na simultaneidade, na oralidade, na configuração orgânica integrativa recalcadas em favor da mentalidade classificatória, do sequenciamento serial e da linearidade da escrita que a era mecânica hegemonizou. McLuhan percebeu ainda muito cedo que esses efeitos totais dos novos meios eletrônicos irromperiam numa retribalização do homem, na passagem da mecânica galáxia de Gutenberg para a eletrônica aldeia global.

O termo aldeia global** é outra contribuição célebre de McLuhan; trata-se de uma denominação precurssora para o espaço comum destinado a interações mediadas que posteriormente a cibercultura reivindicaria pelo nome ciberespaço. Aliás, a noção de que os meios criam novos “espaços”, novas ambiências, deve muito a McLuhan, para quem o advento de um novo meio, estendendo a potencialidade humana, abre seus sentidos a novas percepções, antes inteiramente estranhas, bem como desloca a significação de todas as demais faculdades perceptivas e mesmo cognitivas.  Assim, os meios configuram, também, ambientes sensórios únicos e novos, que funcionam tal qual um espaço ainda desconhecido que nos desafia a explorá-lo.

Um indivíduo (ou mesmo uma sociedade inteira) estaria preparado para lidar com uma ambiência sensorial singular que é também uma extensão tecnológica de seus sentidos? A resposta que McLuhan sempre reiterou, categoricamente: não. Uma vez imerso nos novos “espaços” sensórios condicionados por nossas extensões, resta explorá-los, não pela análise sequenciada de seus conteúdos (as “mensagens” para o homem tipográfico), mas pela tentativa de decifrar sua gramática própria, a maneira pela qual ele processa seus efeitos – a mensagem no sentido mcluhaniano. Lembra McLuhan, em sua obra principal, que Napoleão foi o primeiro a entender a gramática da pólvora, assim como Aléxis de Tocqueville foi o primeiro a apreender a gramática da imprensa e da tipografia; decifraram, assim, suas mensagens.

Meios digitais reconfiguram a percepção de meios tradicionais. A maneira como lemos na internet é o caso exemplar: o texto se verte em hipertexto, que desvincula a leitura do padrão linear, sequencial e contínuo que o meio do livro impresso canonizou desde os tempos de Gutenberg – foi a revolução do codex (livro), em substituição ao pergaminho, como suporte privilegiado da escrita e da leitura. A nova revolução, a do hipertexto, permite uma extensão da faculdades de escrita e leitura viável, a princípio, apenas na ambiência sensória condicionada pelo ciberespaço.

Artext

O Artext (www.artext.co.uk) pulverizou a sucessão linear da escrita (bem como seu conteúdo discursivo), propondo uma nova função para os tipos (fontes) - agora altamente imagética. Os meios digitais condicionaram o "design tipográfico", que permite uma experiência criativa radicalmente novas a partir de meios tradicionais.

* Série de três postagens sobre a relação entre o homem e suas extensões mediáticas.

**No site do professor Wladymir Ungaretti há um artigo bastante útil aos mais interessados sobre a influência do pensamento do padre Chardin no conceito da aldeia global em McLuhan.

1 Comentário

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  1. Greg

    Possivelmente eu não esteja de acordo com muito do que McLuhan diz. Este é, todavia, meu primeiro contato com o trabalho dele e você está apresentando bem idéias que parecem bastante complicadas.

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