O Intramuros: uma nota sobre a distopia educacional de “Entre os muros da escola”

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Cena de Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet

Cena de "Entre os Muros da Escola", de Laurent Cantet

A etimologia do verbo educar revela um fato curioso:  uma de suas possíveis raízes latinas, educere, se traduz no sentido mais literal por “conduzir para fora”. Desde que Platão concebeu o primeiro prisioneiro arrancado à força da caverna de sombras para o mundo das luzes fortes; a tradição humanística  tributário do Século das Luzes concretou a utopia platônica no plano da transformação social e, sob esse ideal, hegemonizou a educação como o instrumento emancipatório universal. Visto sob tamanhos auspícios do pensamento ocidental, o título do filme semidocumental do francês Laurent Cantet sobre o ensino em uma escola pública de Paris soa irônico: Entre os muros da escola (Entre les murs, França, 2008). E não é gratuita a ironia em se tratando de um filme que pretende mostrar o avesso do ideal, a distopia educacional contemporânea, que Cantet aborda num realismo magistral a partir da costura sutil do veraz com o verossímil na narrativa fragmentária, tensa e impactante. A educação, aqui, é um terrtório de incompreensão, de disputa entre discursos culturais que plasmam a sociedade multiétnica da França de nossos dias – cabe ao professor, detentor do discurso institucional hegemônico, (a tentativa de) buscar uma linguagem comum que as integre.

O livro de memórias escrito pelo ex-professor François Bégaudeau, contando suas experiências de ensino em uma escola pública de Paris, serviu de inspiração para o projeto de Cantet. Buscando fidelidade máxima na adaptação do livro, o diretor escalou o Bégaudeau para interpretar seu próprio alter-ego, François Marin, professor de francês num colégio público da periferia parisiense e responsável pela direção de uma das turmas. Logo na primeira cena o vemos entrando na escola, daí em diante, o filme se encerra entre os muros desse espaço social, e resquícios do mundo exterior adentram tão-somente pelas conversas que o professor tem com seus colegas, com os alunos ou, mais raramente, com os pais. Nesses diálogos, que constituem a quase totalidade da película, a plural sociedade francesa emerge com força simbólica avassaladora – neles, o acesso ao mundo extramuros se dá apenas no âmbito das representações dos discursos culturais particulares (principalmente por parte dos alunos), cada um dos quais constituinte do cenário muito mais amplo; as partes, porém, jamais formam um todo coeso ou coerente. Cantet, empregando uma técnica já clássica da ficção naturalista, pretende assim transformar a turma dirigida por Marin no microssomo da sociedade francesa em que dividem espaço com imigrantes (e descendentes de) argelinos, caribenhos, marroquinos, chineses, portugueses além de franceses pertencentes às etnias minoritárias dos subúrbios.

As cenas se alongam nos sucessivos debates (ou confrontos) de Marin com a turma e desenvolvem a tensão dialógica ao máximo. O uso ágil da câmera na mão, com cortes abruptos que mantém os desfechos das cenas em aberto não escamoteiam a proposta do filme: expor um cenário sócio-cultural complexo sem simplificá-lo com soluções; são as antíteses, não as sínteses possíveis, o que interessam ao projeto de Cantet. A abordagem é parcial, de fato, porém eficaz: consegue esmiuçar pontos-chave de uma totalidade intrincada com perguntas deixadas sem respostas, a principal das quais (a meu ver): uma cultura nacional verdadeiramente multiétnica é possível? Cantet não propõe respostas; antes complexifica ao máximo os impasses de uma França multiétnica, pautada na tensão entre as culturas minoritárias e a cultura nacional, decadente enquanto meio hegemônico de acesso ao discurso. Cada vez mais, as identidades locais concorrem entre si e com a cultura oficial pelo direito de conservar sua voz distinta.

As disputas pelo discurso não fogem à agressividade. Quando o professor Marin,  na tentativa de encontrar uma linguagem comum em meio à heterogeneidade, abre espaço para que os alunos, um por vez, falem livremente para a turma, Carl, que é caribenho das Antilhas (território francês), manifesta-se torcedor da seleção francesa de futebol e é severamente rechaçado pelos colegas descendentes de africanos, que torcem para as seleções dos países de origem de seus pais. A desarticulação tende ao máximo. Outra cena emblemática é a da leitura do Diário de Anne Frank, livro escolhido pelo professor para ser trabalhado em sala. Não por acaso, trata-se de uma obra escrita por uma jovem presumivelmente com a mesma idade que a média da turma e que, como grande parte deles, fazia parte de uma minoria e sofreu no exílio. A clara intenção de instigar uma identificação entre os alunos e a autora do livro fracassa com o tácito desinteresse geral da sala. Esforços são enormes, os resultados, frustrantes.

Cantet mostra como as tentativas de estabelecer intercompreensão baseada em discursos integrativos (que tendem a uniformizar a diversidade) se dissolvem confrontadas com arquipelagos étnicos condensados  no espaço de uma sala de aula. As falas dos alunos jamais convergem para o consenso geral, como consequência,  os diálogos inevitavelmente se adensam  em uma tensão incessante. O discurso – que os antigos gregos identificavam à faculdade propriamente humana da razão – , entre nós, modernos (e ditos “pós-tudo”), se corrói em meio à incompreensão generalizada. Discurso é ruído.

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