Poeminha de merda – Postagem Temática

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Imagem gratuita aleatoriamente escolhida: primeiro resultado da busca de imagens do Google para "Dadá".

Houve dias de desolação. Para alguns houve já o suficiente para fazê-los meter na têmpora uma bala ou para esfacelar o crânio num choque de 23 andares contra a calçada lá embaixo.  Aquela exasperação que nos toma e nos derruba, a fragilidade de si revelada, os sonhos mais obsessivos se despedaçando antes mesmo que atentemos para eles, o medo, o medo do medo, a hesitação – tudo isso precipita o que chamo desolação. E a desolação dói, e a dor é sempre uma experiência memorável, e a memória das mais intoleráveis dores é também dor, e desolação é sempre intolerável. Isso me cansa. E me canso da dor, e também desse desconforto de existir – e, feito, entro em divina indiferença. A agitação cega se acomoda, sem alento. Só não quero mais sentir.

Foi num dia desses em que aspirei a nada, nada queria e tudo em mim era mais nada. São dias interessante, a indisposição me pega de jeito e violenta minha mente que me atordoa e é então aquele fito no vazio – e o vazio é atraente – e avanço para cortejá-lo. Avanço nada – essas palavras me cansam, pois sempre que tento aumentar o que sinto e dizer algo com alguma figura de linguagem acaba que digo o contrário: a exacerbação da verdade pela palavra é pura mentira (ou não, acho que exagerei, talvez nem sempre seja por aí…). Mas não, não avanço para o vazio, apenas paro e fico parado, sem querer nada, ou querendo sim, mas não mais que nada. Que nem uns personagens do Bergman que tem aquela  crosta dura da aparência e cuja essência é outra crosta. São uns cascas!

Quando dei por mim, já se haviam passado umas duas horas de nada, de deitar e ficar deitado de lado, rosto prensando o travesseiro por sobre o qual apenas um olho vê nada que seja para ser visto e a boca fica aberta um pouco, mas bastante para escorrer baba sem perceber. Por fora é essa chatice, por dentro, na minha cabecinha oca,  é nada, nada que se possa atribuir. Ou talvez houvesse até algo, mas, mas era, assim, circunstancial; trivial, melhor dizendo, umas coisas de memória passando, sabe, uns fracassos (e só fracassos) desfilando no panteão das minhas mais edificantes realizações pessoais. Mas já não importavam, pois nada importava, e só nada.

Até me veio Beckett de memória. Veja só, memória teimosa, acorrentou Beckett a minhas magníficas quimeras fracassadas. Mas não era nada. Só uma frase de um personagem que deu de aparecer, daquele mendigo que espera Godot e que depois encontra, só que não Godot, dois caras estranhos; e espera Godot, com o amigo, mendigo também; e quase vai embora, mas fica, e espera Godot; aí o dia acaba; e no dia seguinte esperam mais Godot. E aí não acontece nada, de novo. Mas é engraçado, e ainda mais na segunda vez em que nada acontece. Mas o que dizia? Nada? Não? Ah, a fala, de Estragon (o mendigo, um deles), ele diz: “minha vida de merda foi toda cagada neste buraco”. [Estou até rindo agora.] Verdade, verdade. Não sei porque na hora lembrei disso, só lembrei; e veio inteira, sem erro, a fala, como se tivesse decorado, mas não tinha. Enfim. Não importa, pensei, pronto.

Mas, de súbito pensei em Estragon falando em merda, minhas dobras cerebrais se contorceram, se contrairam e se dilataram (depois relaxaram de novo). E a engendração mental me despertou da letargia do corpo. No começo é ruim, como acordar, é ruim, dá vontade de continuar dormindo. Embrionava, ainda deitado, um poeminha, um poeminha cuja ideia primeira me foi revelada pela merda de Estragon. Não levantei, nem o escrevi, guardei o feto de memória e fiquei trabalhando nas possíveis versificações. Queria algo concreto, visual.

Mas ficou uma merda. Quer ver mesmo? Conta e risco…



Tem gente que já cheirou

tanta merda

que merda já é

perfume

e perfume

é merda.

Não é uma merda?

|

À merda todos,

onde           já estão.

Todos,              todos

violando

– pois a mente humana é suja como – o

olho de merda.


As fábulas têm uma moral. Isso que vim narrando, o processo anticriativo da elaboração poética, não é uma fábula, nem precisa ter moral, mas acho que, agora falando,  vejo uma linha de fuga da amoralidade. Que seria: despertamos de nosso nada letárgico para fazer merda.

2 Comentários

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  1. hadassamanna

    Não posso encontrar os motivos para que tal fato tenha ocorrido, apenas afirmo sem receio o que a mim mesma parece inverossímil: que o mesmo sentimento de anseio do nada, de letargia profunda, o mesmo vislumbre do vazio e tédio de ser, tomou-me a mim também em instantes recentíssimos! E num ato que à minha languidez serviu de deboche, pus-me a escrever, socorri-me nas palavras. São versos de merda, é verdade. A letargia termina sempre por ceder espaço. Nem que seja à merda.

    http://hadassamanna.wordpress.com/2010/01/13/letargia/

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