O resto de mim [um fragmento]

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De noite achegou-se a carroça que recolhia dejetos da rua. Era movida por tração do carroceiro, que seguia arrastando-a lenta e constante à margem da calçada com halos de luzes de postes velhos, intermitentes, elevados bem acima de tudo mais na em toda a rua suja que se prolonga, reta, indefinidamente; pegava o lixo do chão, amassava, compactava e remodelava-o aos cantos vazios da carroça.

Recém recolhido o último grão de inutilidade da quadra, atravessando a esquina a esquina, caía no chão da rua por onde já havia passado, um resto de matéria descartada. E a carroça retrocedeu para contê-lo.

Já retomava ao curso quando outro dejeto tomba uns metros ainda mais atrás. Ao mesmo esforço para capturá-lo, segue-se que jogam mais uma coisa sem uso à calçada; e ela se estilhaça no meio-fio, e os pedaços despencam no córrego d’água suja que vaza para o bueiro. E como tinha de ser, a carroça o recolheu para si o que sobrara. E nunca acaba seu trabalho.

(Muito material eliminado; o maquinário oficial desacelerava o passo e muitas peças eram descartadas e novas peças se formavam para substituí-las em momentos mais férteis de produção.)

A carroça fazia-se retornar com lentidão quando o carroceiro me divisou sendo arremessado, e caindo, e rolando no meio da rua para bem perto de meu destino na carga de restos supérfluos da carroça que já se virava para mim.

Fui comprimido sob impacto das pancadas de objetos duros e jogado para dentro do compartimento de entulho.

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